Novo post no novo endereço do blog:
Tem música nova do Carroça lá no…
www.olhodequem.com
Por conta de alguns problemas de contrato com o servidor no qual armazenava dados utilizados neste blog, serei obrigado a transferir o domínio para lá também. Portanto, anotem aí o novo endereço do …olho de quem…:
Não me atrevo a escrever tecnicamente sobre jazz, prefiro estar cambaleando incompleto naquele movimento entre ouvir e impregnar-se apenas; a encaixar grandes obras no cânone do pleonasmo teórico. Isso, ou desculpa de amarelo é febre: não falo porque não sei falar.
Não sei falar, por exemplo, sobre Charlie Parker, ou em que tempos e contratempos caem suas acentuações, ou sobre que intervalos de nota ele despeja sua melodia. Sei, por outro lado, que Charlie Parker não é pra dançar, e que ouvi-lo é como formular uma pergunta. Parker ganhou o apelido de Bird por seus voos imprevisíveis nos solos, mas quem perde o chão realmente é quem se arrisca a ouvi-lo.
Ko-Ko:
Não compreendo Coltrane, mas uso Coltrane para preencher os cantos da sala, e fica difícil saber o que é nota e o que é eco, quem é a imagem e quem posso tocar. Coltrane sopra e se ocupa, se multiplica… mas é uma coisa só, aqui e ali. Uma névoa sempre perto, envolvente mas intocável.
Mr. Day:
A CBN Ponte-Sobre-O-Rio-Negro é realmente brilhante e original em seus argumentos: até um possível fracasso numa eventual candidatura de Amazonino ao Governo do Estado seria culpa do Serafim. Segundo Ronaldo Tirandentes, a popularidade de Amazonino estaria meio em baixa por conta do trabalho aquém das expectativas. Mas isso acontece pois, obvia e repetida e reiteradamente, Serafim deixou a Prefeitura sem dinheiro no caixa. Se Serafim tivesse deixado a grana, aposto que as 1.000 (mil, MIL) creches prometidas estariam sendo construídas; ou as escolas não estariam mandando a molecada pra rua mais cedo por falta de professor; ou os buracos teriam sido finalmente exilados mesmo depois das suaves prestações de 30, 60, 70, 90 e carnavais de Gorayeb, para que então os ônibus com Internet gratuita pudessem transitar tranquilamente pela periferia da cidade; ou o preço da passagem, ou o da meia-passagem, ou pode completar aqui com o que for: _________________, __________, _____________, ________________, _________________, _______________, ___________. A água não entra nessa conta porque, segundo a rádio, não é responsabilidade da Prefeitura. Apenas de Serafim. Aliás, tudo o que não for culpa de Serafim – o que sobrar – poderá ser usado para enquadrar Alfredo Nascimento.
No mais, Omar ganha, Omar ganha. E Omar ganha. E Omar ganha de longe com carinha de nojo em riste, assitindo tranquilo ao pleito, montado em seu monstro de teta metropolitana e hálito de diesel e asbesto.
Hoje todos os candidatos ainda não-candidatos estão empatados temporariamente, mas só porque é Dudu que ainda está com a carinha de nojo em riste. E com as esporas: não desceu da besta pra tentar se empoleirar noutra.

Sou fã de road movies, do trânsito que eles evocam e que nos define, pois só nos resta a estrada e ela nunca chega aonde queremos porque querer é apenas lançar uma pedra para além dessa vista curta e ter uma direção e partir… irremediavelmente. Caros F… Amigos (Cari Fottutissimi Amici, 1994), do mestre Mário Monicelli, é meu favorito no gênero. Coloca em trânsito tanto a Itália quanto o cinema: no plano narrativo, um país no meio do caminho entre a fome numa guerra absurda chegando ao fim e um carregamento ilusório de batatas do Canadá a ser distribuído na relojoaria; no plano da linguagem, uma cinematografia entre o chão de De Sica e as nuvens de Fellini.
Pois é da realidade de extrema miséria e desilusão, da visão desbotada no pó de um mundo em ruínas, que Monicelli retira sua matéria onírica, a partir de uma ingenuidade e de um otimismo quase descabidos não fossem, fatalmente, a única saída possível para que as vidas de seus personagens continuem. Essa é a verdadeira fuga, o verdadeiro trânsito, o trânsito que prescinde de um destino exatamente porque o que se deseja é apenas continuar andando, essa é a fantasia que nos desloca e que nos aliena. É a estrada que nos resta.
Então um velho ex-boxeador, apelidado de Senhor Dez (Sor Dieci) porque sempre era levado a nocaute em suas lutas, resolve juntar uma trupe de largados dessa vida para promover pequenos campeonatos itinerantes de boxe pelas feiras de Florença, aproveitando-se do fato de que todos estavam em busca de diversão com o fim da guerra. Ao contrário do que acontecia antes, agora nada mais parece capaz de derrubar Dieci, o Dieci Quixote para quem tudo é uma experiência extraordinária, o Dieci que representa a leveza pregada por outro italiano, o Calvino, em suas propostas para o novo milênio. Sor Dieci está tão absorvido pela fantasia que num dado momento imita um galo, batendo os braços flexionados como asas e cacarejando, como forma de atrair uma galinha que eles tentavam pegar para fazer de almoço, e tudo faz parecer que isso seria a coisa mais normal do mundo a se fazer.
Não se trata, pois, de um tratamento visual que evoque o fantástico; longe disso, é a realidade que é absurda e insuportavelmente distorcida. A fantasia não vem em carro alegórico, mas nas sutilezas do cotidiano, num veludo quase translúcido envolvendo tudo e é preciso estar numa perspectiva exata de convergência de todos os dissabores e das amarguras e de todos os pães amassados dessa vida para que de repente se abra o olho e se comece a vê-lo. A leveza, ou fantasia, está no otimismo invencível de Dieci, na mulher do tiro ao alvo que dá em troca de berinjelas, no homem que perdeu a mulher e as botas e vai de bicicleta em busca de alguma delas, calçando folhas de figo que precisam ser umedecidas de tempos em tempos.
A fantasia está no boxe pela estrada no fim do filme; não no fim da estrada.
Ouvimos à CBN Ponte-Sobre-o-Rio-Negro como quem assiste a uma novela. Essa é a verdade. Não é pelo jornalismo, mas pelo entretenimento. O jornalismo, na verdade, está morto: tudo é jornalismo.
Num dia – pegando o bonde andando –, ministro corrupto (MC) e jornalista anti-ético (JAE) protagonizam espetáculo de ameaças e xingamentos antes de embarcarem para uma festa folclórica no interior do Estado. No outro, o JAE acusa o MC de ter causado danos ambientais numa obra em sua casa, mas descobrem que a casa nem era dele.
No capítulo seguinte, o MC tenta, na base de influência política, ao lado do Dono de Outro Veículo de Comunicação (DOVC) impedir a inauguração de um novo canal de TV do JAE, que fora conquistado em licitação – o que seria um grande serviço à sociedade, não fosse… –, acusando a Mãe de 70 e Poucos Anos (M70PA) do JAE de falsificar assinatura. Nesse momento entra a perícia do barbudo gordão que vive no Fantástico (PBGVF). Então o JAE passa a cobrar com mais veemência as promessas políticas do MC, como asfaltamento da BR-319 e construção de portos no interior – o que seria um grande serviço à sociedade, não fosse…
Entram comerciais do Governo.
pausa para umas tramas paralelas: Governador Chantagista e Inescrupuloso (CGI) contrai novo empréstimo para o Prosamim, e pede que a população vote em seu futuro candidato em 2010 para que o projeto siga adiante, usando as palavras “dêem (povo, com o voto) continuidade ao meu mandato”. Aí a Comunista Deslumbrada com a Alta Roda, Retornando da Viagem ao Idílico Interior Camponês da Propaganda do Governo de Centro-Esquerda (CDARRVIICPGCE) faz campanha para que o GCI se candidate ao Senado – que deve estar precisando de gente como ele… –, dizendo que, pelo bom trabalho, a vaga já estaria garantida.
Entram comerciais do Governo e cenas em tempo nada-real do trânsito.
voltando: o MC, por meio de um Advogado Obscuro (AO), coloca o JAE lá na CPI da Pedofilia, contratando uma Jovem Senhora de 28 Anos Mãe de 5 Filhos (JS25AM5F) para dizer que foi molestada sexualmente pelo JAE há 14 anos, quando trabalhava na casa dele. O DOVC, por sua vez, coloca a notícia na primeira página de Seu Jornal (SJ) e quase se pode ouvir a música triste de fundo enquanto JAE fala sobre sua pobre M7OPA assustada ao se ver diante de uma denúncia fraudulenta de um capítulo anterior; e quase se pode ouvir A Internacional (L‘Internationale) de fundo quando o JAE se recupera e diz que continuará em sua luta pela ética e pela informação de qualidade para o Povo de Manaus (PM) porque, ele próprio, agora com Seu Canal de TV (SCTV), tornara-se um Cachorro Grande (JAECG).
Entram comerciais do Governo.
Como em toda novela, todos vão se casar no final, na frente das câmeras da SCTV, que é onde essas coisas importam.
Lá no Simão Pessoa, Aníbal está nu até onde se pode ver, e um pajé tukano com sua camisa de botão, e ambos estão mortos enquanto se tocam e se participam, porque a morte está amanhã e talvez eles saibam que há sempre uma maneira de esticar esse tempo, aproximar dois lugares e dois momentos e todos os lugares e todos os momentos porque o que define o tempo e o espaço deixa de ser o que se vê para ser o que se sente.
Então Aníbal com sua camisa de botão e o pajé tukano está nu e enquanto eles se tocam e se participam, há uma morte que os define e que ronda por todas as gentes que se desfazem e por todos os espaços que se sincronizam e por todos os tempos se sobrepõem. O pajé e o poeta, a imagem e a palavra: não a palavra que quer dizer a coisa, mas a palavra que É a coisa; não a imagem que representa um objeto, mas a imagem que É o objeto.
Enquanto eles estiverem mortos, pajé e poeta, 2006 esta madrugada.
Assistir a esses escândalos requentados sobre a Igreja Universal me faz pensar naquela gente humilde e necessitada, no povo bondoso e ingênuo que é sempre enganado pelos pastores inescrupulosos das hordes de mercenários como o bispo Macedo… Corta, corta, vamos recomeçar!
Um camarada que acha que pagando mais para uma Igreja vai pra frente da fila de espera do milagre peca pela ganância apenas – quem garante que o pastor-despachante não o colocou, de fato, na frente da fila? –, e por crer numa imagem de Deus como brasileiro e chefe de repartição pública, de onde nenhum carimbo do mundo é garantia de serviço prestado. Não há ingenuidade por estas bandas, só espertezas – recompensadas ou não.
Se a minha noção do divino – conceito – e de Deus está ligada à noção de mercado, temos que olhar a coisa pela lógica econômica. A oferta de milagre está abundante, é verdade: houve um aumento significativo no número de postos de venda por se tratar de um produto (1) isento de impostos em todas as fases de seu trânsito entre as alfândegas e burocracias do Céu e da Terra, (2) que não possui parâmetros de eficácia estabelecidos no Inmetro e (3) com direitos autorais, royalties e custo de produção de valor zero.
Mas isso pouco importa: a demanda por milagre é sempre infinitamente maior que sua oferta, porque está intimamente ligada – em proporção inversa – à distribuição de renda e às ofertas de emprego, de educação e de saúde. Por esse motivo, e como a demanda por milagre jamais será elástica na terra em que Deus for brasileiro e chefe de repartição pública, o preço só tende a aumentar.
Exigir que o pastor cobre barato é antidemocrático, contra as leis do livre mercado e, acima de tudo, uma babaquice paliativa. Não há saída para esse paradoxo: para se combater o preço abusivo do milagre, é preciso diminuir sua demanda com muito emprego, renda, educação e saúde, o que no caso do Brasil, é pedir por um milagre.