Dylan – Life is hard

Primeiro, a barrigada de porco é imersa em sua própria banha, num fogo bem baixo para confitar. Depois derrama-se um pouco da gordura numa frigideira, deixa-se esquentar bem, e fritam-se os pedaços. O resultado é um torresmo irresistível, gordura quase líquida, derretida sob uma camada de pele crocante e um naco grande de carne de presente.

Nasci em Minas, mas isso fora praticamente tudo. Depois dos cinco primeiros anos de vida, repartidos entre Belo Horizonte e Juiz de Fora, morei em Vila Velha, Rio de Janeiro e, finalmente, cheguei em Manaus – aos sete e meio –, onde cresci, me reproduzi e talvez morra.

Sou mineiro, mas de Manaus. Se chego nas Gerais, é preciso que me lembrem das raízes, como a barrigada de porco ou a gramática velha que transforma, por exemplo, “o ônibus passou agorinha mesmo” em “uonspassô gurinhamês”. Voltar a Minas é como escutar histórias da adolescência dos pais e tios: embora não as tenha presenciado, tudo soa familiar demais, estranha e confortavelmente reconhecível.

Temos uma insuperável propensão a transformar toda terra estrangeira em barro de quintal. Apegar-se é viver. Talvez seja preciso apegar-se para viver.